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As causas da medicalização na infância e a depressão

24/09/2015 Por: Pablo de Assis
As causas da medicalização na infância e a depressão

O tema da medicalização é muito trazido quando falamos dos excessos e abusos dos medicamentos em determinados ambientes, principalmente no ambiente escolar. Crianças que preferem videogames e atividades ativas a ficarem sentadas, caladas anotando o que o professor fala são rotuladas como tendo o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. São receitados remédios, como o metilfenidato para ajustar a criança à dinâmica escolar e, depois de muito tempo, percebemos os efeitos indesejados dessa prática, como a passividade da criança diante das situações da vida.


 
A medicalização da infância é muito criticada, porém, pouco se fala sobre a medicalização dos sentimentos ditos negativos, como os relacionados à depressão. Depressão é vista como sendo uma tristeza profunda, contrário de felicidade, porém, como diz o jornalista Andrew Solomon, autor do livro "O Demônio do Meio-Dia", o contrário de depressão não é felicidade, mas sim vitalidade. Quem sofre de depressão não está sempre triste, mas sim falta-lhe vontade de viver.


 
E isso pode ser grandemente enganador. Um quadro de depressão é tão diferente de outro que fica muito difícil reconhecer o problema quando ele aparece. Uma pessoa com depressão pode continuar produzindo, talvez um pouco menos, mas sem demonstrar tristeza. Outra pessoa pode querer se isolar de tudo e de todos, enquanto outra busca no contato humano alguma forma de compreender pelo que está passando e não se isola, porém busca outras pessoas, por mais que não sinta prazer em fazer nada em especial.


 
Em um ambiente de trabalho, isso é muito real. Casos de depressão são presentes e, quando não são destratados como alguma frescura ou falta de vontade de trabalhar - muitas vezes ameaçado com demissão, com frases como "se você não quer trabalhar, tem quem queira" - são destratados como uma doença que precisa ser medicada. É aí que a medicalização da depressão vira problema.


 
Ou destratamos a depressão considerando-a frescura, ou destratamos a condição considerando-a uma doença tratável e controlável. De qualquer forma, evitamos de viver essa condição, enquanto forçamos a pessoa a ser sempre produtiva. Segundo o psicólogo estadunidense, James Hillman, essa ânsia por produtividade que evita a vivência da depressão pode levar a outro problema: o transtorno bipolar.


 
A depressão pode, sim, ser vivida. Geralmente, a vivência que a depressão pede é a contrária da sociedade. A depressão pede que paremos mais, que façamos menos, que olhemos mais para nós mesmos, que reavaliemos nossos valores pessoais, o que e quem é importante para nós e como é possível vivermos tudo isso. A falta de vontade de viver descrita por Solomon pode ser compreendida como uma falta de vontade de viver, especificamente, o que se está vivendo no momento -ou no acumulado da vida até então - necessitando que busquemos outras alternativas melhores para nós.


 
Quem já passou por uma depressão e conseguiu chegar do outro lado relata que foi preciso uma transformação na vida e muita coisa ficou para trás. Mudanças de carreira, divórcio e construção de novas famílias, ou até mesmo mudanças de valores, crenças e religiões foram necessárias para deixar para trás o que tirava a vitalidade e encontrar novos caminhos com mais ânimo.


 
Destratar a depressão como frescura ou como uma doença qualquer é evitar que olhemos a depressão pelo que ela é e evitar que encontremos alternativas. O discurso médico diz que a depressão é uma doença incapacitante que fará com que a pessoa precise tomar antidepressivos pelo resto da vida. Mas o que esse discurso não fala é que enquanto a depressão for destratada desse jeito, ela nunca irá embora. Mas, revendo a depressão, olhando com novos olhos essa condição de vida, é possível encontrar novos caminhos que não precisem de ajuda química para trilhar.

 
 
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Pablo de Assis é professor da Faculdade Dom Bosco. Possui graduação e bacharelado em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2005). Atualmente é psicoterapeuta, pesquisador voluntário no Núcleo de Estudos do Desenvolvimento Humano (NEDHU) da Universidade Federal do Paraná, Mestre em Comunicação e Linguagem pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e professor de psicologia no Ensino Médio e Superior. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Analítica, História e Epistemologia da Psicologia e Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Psicologia Analítica de C. G. Jung, transtornos de humor, transtornos alimentares, desenvolvimento humano, gestão humana, pesquisa em psicologia, psicoterapia, história da psicologia, epistemologia da psicologia e psicologia e educação. 
 

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